Há muito tempo queria escrever sobre LOST. O motivo, ao menos para mim, é extremamente óbvio. Escrever sobre LOST é escrever sobre mim. A ideia aqui não é defender a série, até porque ela tem auto-suficiência para se estabelecer no grupo das mais geniais obras de arte deste século. O fato é que nada que eu tenha visto, ouvido ou lido me descreve tão bem como LOST. Foram cinco anos.
Não é exagero algum dizer (e por isso o digo agora) que a minha vida pode ser dividida em duas partes: a que antecede e a que sucede LOST! E no intervalo delimitado entre o fim e o início da série eu permaneci "ilhado". Esta última sentença será melhor entendida mais a frente nesta postagem quando eu expuser o que a ilha de Lost representa para mim. Mas já adianto que foi no período em que permaneci "ilhado" que eu fui instigado a pensar e a tentar entender a vida através de questionamentos mais profundos. Definir LOST é extremamente difícil diante da sua potencialidade transmidial materializada por um trabalho coletivo de escrita densa e poderosa. Mas se eu fosse escolher uma definição que traduzisse a essência de LOST escolheria a definição feita por Aldo Grasso.
"Lost é uma obra-prima. É uma reflexão sobre o Ocidente, em sua forma mais angustiada e irredutível. Trata-se de uma reflexão que não tem medo de levar a narrativa até o limite de ruptura: dilatando-a num ciclo de seis anos, desconstruindo sua linearidade temporal e expandindo-a para vários suportes".Depois desta brilhante e, aparentemente, justa definição fico mais confortável em dizer o que LOST representou para mim. LOST foi o gatilho do processo de mudança da minha vida. Não sei como eu lidaria com as minhas fálicas decisões e os meus fálicos desejos sem ter compreendido a essência de LOST. A cada episódio um novo desejo de pensar, um novo desejo de resposta sobre as questões existenciais sobre as quais eu nunca tinha trilhado um caminho de pensamento na tentativa de descobrir uma resposta. O episódio acabava e a busca pelas referências deixadas pelos produtores só começava.
Foi com LOST que eu fortaleci alguns dos meus valores, olhei para a vida com uma nova ótica, descobri o meu gosto pela Filosofia (e daí o meu fascínio por LOST e a minha vontade de escrever sobre), formei minha opinião a respeito de Deus e da religiosidade, do papel dúbio da ciência, refleti sobre a razão pela qual nós estamos neste mundo, sobre o livre arbítrio, sobre a influência das pessoas na vida das outras, sobre a possibilidade de existência mútua do bem e do mal relativizados nas mais diversas situações da vida, sobre a luta pelo desconhecido, e o mais importante de tudo: sobre a possibilidade de prática de auto-conhecimento através do comportamento dos outros.
Eu não estou sozinho quando o assunto é a influência da série na vida prática. Conheci pessoas que se casaram por intermédio de LOST, por exemplo. Por isso, antes de adentrar em alguns pontos de vista pessoais e deixar mais explicito o motivo pelo qual a série tem sido meu oráculo para a vida, divido alguns vídeos de fãs que transmitem por gesto e palavras o meu carinho e sentimento pela mitologia da série.
Para mim, LOST não deve ser classificado como uma obra de pura ficção científica. A série tem a ciência e o mistério como plano de fundo mas trata, majoritariamente, dos dramas das personagens, por isso a considero um drama-filosófico.
A natureza filosófica de LOST não se esgota no jogo dos nomes de famosos filósofos atribuídos às personagens (John Lock, Jean-Jacques Rousseau, David Hume, Jeremy Benthan) ou no de algum filósofo explicitamente citado (Friedrich Nietzsche).
A natureza filosófica de LOST não se esgota no jogo dos nomes de famosos filósofos atribuídos às personagens (John Lock, Jean-Jacques Rousseau, David Hume, Jeremy Benthan) ou no de algum filósofo explicitamente citado (Friedrich Nietzsche).
A adoção dos nomes filósofos não significa que devemos interpretar LOST com as ideias puras destes pensadores. Seguir a pista histórico-filosófica para tentar entender a série, definitivamente (digo por experiência própria) não é o melhor caminho. Vamos pegar o personagem John Lock como exemplo. Até se consegue algumas boas evidências das ações, do modo de pensar, do comportamento da personagem por meio do pensamento do homônimo filósofo inglês e das distinções elaboradas por ele acerca da relação entre fé e razão. Contudo, essa seria uma pista pouco interessante, pobre de imaginação e criatividade - e sem aquela força ficcional-filosófica que é característica de LOST. Em vez de conduzir-nos por espaços inexplorados, ou ajudar-nos a abrir novas clareiras, seguir as referências históricas da filosofia faz com que nós, apreciadores desta grande obra, andemos em círculos, como acontece às vezes com os protagonistas da série. E não por acaso.
É preciso dizer que a filosofia opera no âmago mais obscuro de LOST, sob a forma de uma série de questões fundamentais: É claro que estas questões não são simples, mas se tornam ainda mais complexas na série porque à todo tempo somos levados a refletir se um conceito único de verdade realmente existe.
LOST coloca em cena exatamente este grande enigma a respeito da verdade, e desdobra como nenhuma outra obra as consequências deste questionamento. A série mostra todos os limites da ideia de verdade como adequação do pensamento e do discurso às coisas e, simultâneamente, resguarda contra os riscos inerentes ao desejo de verdade a todo custo. A série incita a pensar em outra ideia de verdade, além do que é simplesmente "correto", "justo" ou "adequado". É isso que ao mesmo tempo me desconcerta e me fascina na série.
Não se trata simplesmente de descobrir a verdade como meta e fim de uma trajetória. Mas de aprender a descobrir e pensar em outra ideia de verdade. Uma verdade que, ao se revelar, sempre deixa um fundo de ocultação e de mistério que nós aprendemos a considerar como tal.
Lembro-me da repercussão da crítica sobre o início da terceira temporada, quando personagens até então inexistentes na série protagonizaram o primeiro capítulo (e depois se entrelaçaram brilhantemente com a mitologia da série e com as velhas personagens). Foi a partir daí que os produtores começaram a ser julgados como loucos que tinham se perdido na complexidade da própria obra criada. Foi a partir daí que os "fãs" de LOST se divergiram. Talvez a grande parte dos que acompanhavam a série desistiram por desacreditar num fim digno para a obra. Mas, para os verdadeiros "fãs" foi só a ficha que caiu para entender a primeira grande lição de LOST.
O fato de descobrirmos que existiam outras pessoas na Ilha e de reinterpretar o que havia acontecido até aquele ponto da série foi, á priori, difícil de engolir. Era quase um alerta dos produtores bem ao pé do nosso ouvido: Cuidado com suas interpretações porque as verdades tão buscadas pela série (e pelos fãs) são relativas, como toda e qualquer verdade que você julga existir! Sensacional. Daquele ponto em diante fazia sentido entender que o que nós sabíamos da série como um todo era a visão da realidade de Jack, já que é o olho dele que abre o episódio piloto da série. Porém, não se trata de um caso isolado. A série inteira é repleta de episódios que se abrem com o olho de uma das personagens, sublinhando quase obsessivamente o fato de que tudo acontece de acordo com o ponto de vista e a perspectiva.
Outra maneira, bem subliminar, mas bem bonita e interessantes que os produtores explicitaram o comprometimento de LOST com a relativização da verdade foram as constantes presença de clareiras na Ilha, retomando o pensamento filosófico do pensador Heidegger:
Veja bem como LOST insiste em instigar até o limite a busca pela verdade. Locke é "construído" na série como o homem de fé (ele mesmo acredita que voltou a andar movido por sua fé), Jack como o homem da razão (médico, e com espírito de justiça), mas é Sayid (um torturador que sabe arrancar "com alicate" a verdade dos sujeitos) que explicita o pensamento de Nietzsche de que "um desejo de morte poderia ocultar-se atrás do desejo da verdade". Aliás, a presença da tortura declarada não é poupada em LOST. Sobrou até para os próprios americanos quando a série sugeriu a nova verdade da tortura produzida pelo ato de enunciá-la publicamente e admiti-la como possibilidade em certas circunstâncias "desconservando" o sentimento de horror de sua prática. O próprio Jack anuncia essa "nova verdade" num diálogo com Frank Lapidus:
A Ilha pode ser vista como uma metáfora de Deus - ou, mais radicalmente como o próprio Deus, seguindo a ideia elaborada pela filosofia de Spinoza, de acordo com a qual Deus e a natureza se identificam, e cada coisa existente não é senão um modo, uma manifestação de Deus (lembremos de que Lock sempre se referia a Ilha ao invés de Deus na sua jornada de fé). Ao mesmo tempo, a Ilha pode ser vista como uma metáfora do "purgatório", uma vez que ficar "ilhado" significa uma pausa na vida e o começo de uma percepção das personagens do processo de separação do mundo sob a perspectiva da perda e de uma nova origem de mundo, ao passo que os medos internos de cada um deles se materializam num processo de prestações de contas.
O nome da série LOST refere-se ao "estar perdido" na vida e não ao "estar perdido" num espaço geográfico. Daí a minha ligação com a série. Muitas vezes me sinto perdido, como as personagens. A queda do avião representa a parada que todos nós deveríamos fazer nas nossas vidas como um rito de passagem para pensarmos no verdadeiro sentido de nossa existência. Estar "ilhado", nesse caso, significa muito mais que sobreviver à própria morte, significa ter a oportunidade de tentar pensar num sentido maior e mais nobre para a vida. Estar "ilhado", nesse caso, é entender a vida além da sobrevivência.
Desde o nascimento cada ser vivo, inclusive você que está lendo esta postagem, já está habituado com a possibilidade inextinguível morte. É justamente por isso que o luto e a gravidez se entrelaçam indissoluvelmente na Ilha.
Lembro-me de quando Boone ficou gravemente ferido e morreu enquanto Claire dava a luz na floresta. Nada de mais se o episódio não insistisse na incrível fusão de luto e gravidez. Os dois eventos simultâneos ocorreram em espaços distintos: a floresta, para o nascimento, e as cavernas, para morte. Porém eles foram íntima e indissoluvelmente ligados, graças ao uso da montagem alternada que remete continuamente a um e a outro - quase como se o nascimento do filho da Claire não pudesse ocorrer senão através da morte de Boone. Mas, em que sentido o luto e a gravidez deveriam estar associados? Não são, justamente, estados opostos? A resposta: somente na aparência. Porque dá a luz significa já destinar à morte - começar a fazer morrer. E isso não somente na Ilha, mas na vida de modo geral . Não é possível doar a vida sem doar, simultâneamente, a morte; logo o único modo de fugir à morte seria jamais ter nascido. E, portanto, estar "ilhado" é uma oportunidade de perceber que viver significa (além de sobreviver) compreender a vida e renascer dessa morte que anda antes de ser efetiva.
O fato de descobrirmos que existiam outras pessoas na Ilha e de reinterpretar o que havia acontecido até aquele ponto da série foi, á priori, difícil de engolir. Era quase um alerta dos produtores bem ao pé do nosso ouvido: Cuidado com suas interpretações porque as verdades tão buscadas pela série (e pelos fãs) são relativas, como toda e qualquer verdade que você julga existir! Sensacional. Daquele ponto em diante fazia sentido entender que o que nós sabíamos da série como um todo era a visão da realidade de Jack, já que é o olho dele que abre o episódio piloto da série. Porém, não se trata de um caso isolado. A série inteira é repleta de episódios que se abrem com o olho de uma das personagens, sublinhando quase obsessivamente o fato de que tudo acontece de acordo com o ponto de vista e a perspectiva.
Outra maneira, bem subliminar, mas bem bonita e interessantes que os produtores explicitaram o comprometimento de LOST com a relativização da verdade foram as constantes presença de clareiras na Ilha, retomando o pensamento filosófico do pensador Heidegger:
"Não existe verdade absoluta porque não há clareira na floresta sem as densidade do contraste da própria floresta. Se penso que a clareira é a própria verdade por ser um espaço da luz e da visibilidade, devo admitir que a verdade só existe sob uma referência, assim como a clareira só existe devido a densidade da floresta".Outras grandes questões (e estas meus caros talvez sejam dignas de pensarmos pelo resto das nossas vidas) que LOST levantou durante as seis temporadas foram: No fim das contas, até onde é valido questionar tudo em busca da verdade? Quem deve buscar a verdade?
Veja bem como LOST insiste em instigar até o limite a busca pela verdade. Locke é "construído" na série como o homem de fé (ele mesmo acredita que voltou a andar movido por sua fé), Jack como o homem da razão (médico, e com espírito de justiça), mas é Sayid (um torturador que sabe arrancar "com alicate" a verdade dos sujeitos) que explicita o pensamento de Nietzsche de que "um desejo de morte poderia ocultar-se atrás do desejo da verdade". Aliás, a presença da tortura declarada não é poupada em LOST. Sobrou até para os próprios americanos quando a série sugeriu a nova verdade da tortura produzida pelo ato de enunciá-la publicamente e admiti-la como possibilidade em certas circunstâncias "desconservando" o sentimento de horror de sua prática. O próprio Jack anuncia essa "nova verdade" num diálogo com Frank Lapidus:
Frank: O tal Sayid, de onde ele vem?Apesar da busca de tantas verdades ao longo dos seis anos de série. Nenhuma delas teve o caminho tão obscuro quanto a busca do entendimento do que era a Ilha. A Ilha, ela mesma, sempre foi tratada como uma personagem (daí o motivo de ser grafada nesta postagem com a letra inicial maiúscula), e que por sinal estava sempre à espreita. Para mim, a Ilha pode ser interpretada de algumas maneiras, mas nenhuma forma exclui a outra.
Jack: Do Iraque.
Frank: Iraque? E é ele vai resolver a questão? O que faz, é diplomata? (referindo-se à quem poderia tirar a verdade de uma personagem que estava aprisionada)
Jack: Não, é torturador. Ele foi torturador da guarda republicana de Saddam Hussein.
A Ilha pode ser vista como uma metáfora de Deus - ou, mais radicalmente como o próprio Deus, seguindo a ideia elaborada pela filosofia de Spinoza, de acordo com a qual Deus e a natureza se identificam, e cada coisa existente não é senão um modo, uma manifestação de Deus (lembremos de que Lock sempre se referia a Ilha ao invés de Deus na sua jornada de fé). Ao mesmo tempo, a Ilha pode ser vista como uma metáfora do "purgatório", uma vez que ficar "ilhado" significa uma pausa na vida e o começo de uma percepção das personagens do processo de separação do mundo sob a perspectiva da perda e de uma nova origem de mundo, ao passo que os medos internos de cada um deles se materializam num processo de prestações de contas.
O nome da série LOST refere-se ao "estar perdido" na vida e não ao "estar perdido" num espaço geográfico. Daí a minha ligação com a série. Muitas vezes me sinto perdido, como as personagens. A queda do avião representa a parada que todos nós deveríamos fazer nas nossas vidas como um rito de passagem para pensarmos no verdadeiro sentido de nossa existência. Estar "ilhado", nesse caso, significa muito mais que sobreviver à própria morte, significa ter a oportunidade de tentar pensar num sentido maior e mais nobre para a vida. Estar "ilhado", nesse caso, é entender a vida além da sobrevivência.
Desde o nascimento cada ser vivo, inclusive você que está lendo esta postagem, já está habituado com a possibilidade inextinguível morte. É justamente por isso que o luto e a gravidez se entrelaçam indissoluvelmente na Ilha.
Lembro-me de quando Boone ficou gravemente ferido e morreu enquanto Claire dava a luz na floresta. Nada de mais se o episódio não insistisse na incrível fusão de luto e gravidez. Os dois eventos simultâneos ocorreram em espaços distintos: a floresta, para o nascimento, e as cavernas, para morte. Porém eles foram íntima e indissoluvelmente ligados, graças ao uso da montagem alternada que remete continuamente a um e a outro - quase como se o nascimento do filho da Claire não pudesse ocorrer senão através da morte de Boone. Mas, em que sentido o luto e a gravidez deveriam estar associados? Não são, justamente, estados opostos? A resposta: somente na aparência. Porque dá a luz significa já destinar à morte - começar a fazer morrer. E isso não somente na Ilha, mas na vida de modo geral . Não é possível doar a vida sem doar, simultâneamente, a morte; logo o único modo de fugir à morte seria jamais ter nascido. E, portanto, estar "ilhado" é uma oportunidade de perceber que viver significa (além de sobreviver) compreender a vida e renascer dessa morte que anda antes de ser efetiva.
A série terminou quase como na primeira cena da jornada: Jack se encontrava no mesmo local do acidente e deitado ao lado do cachorro Vincent. Mas ao contrário de abrir os olhos e ver o avião do próprio acidente ele vê outro avião caindo na Ilha e, em seguida, fecha os olhos. O que esta cena representa pra mim? A resposta: o legado de LOST. O fechamento do olho de Jack refere-se ao fim do seu auto-conhecimento por enfim entender o comportamento oceânico descrito por Freud. Enfim, ele encontrava a paz e os que foram importantes para ele em outra dimensão atemporal, independente de qualquer religião. E o que era o novo avião caindo na Ilha? Mais uma metáfora. Outras pessoas que descobriam a oportunidade de estar "ilhado" para se auto-conhecerem e descobrirem que o que importa nesta vida é o amor altruísta, livre de preceitos e verdades relativas!
O episódio final de LOST que até hoje é lembrado (e pra sempre será) com tanta divergência de opiniões, é para mim nada menos do que M-A-G-N-Í-F-I-C-O. Quem via a série como um quebra-cabeça típico de uma estória de ficção científica se decepcionou, mas quem encarou a série sob a visão de um drama filosófico que representava profundamente a natureza do comportamento humano sentiu a saciedade de descobrir a possibilidade da releitura da própria vida!
OBRIGADO LOST PELA JORNADA. OBRIGADO POR TER TANTA REPRESENTATIVIDADE NA MINHA VIDA!
O vídeo que segue representa muito pra mim. São as cenas finais do final épico de LOST.
