Ao longo de sua carreira, ela nos presenteou com não mais do que dois álbuns (muito bons diga-se de passagem), e um punhado de shows alternados (ou não) com bons bocados de confusão. Hoje ela completaria o seu 28º aniversário (na mesma data que a amiga Fernanda Fumanelli... Coincidência?? Talvez...) e também hoje, pegando embalo com o frenesi da mídia para arrecadar fundos póstumos (lê-se: aproveitando a data entre o aniversário da Amy e data de divulgação oficial da causa da morte para dar um "upgrade" no bolso de terceiros a custa da "defunta") foi divulgado o dueto de Tony Bennett e Amy cantando o jazz "Body and Soul".
Alfinetadas à parte, a música foi lançada, segundo a família de Amy, para lançar (e, porque não, financiar) uma organização de amparo a jovens com problemas de dependência química (www.amywinehousefoundation.co.uk). O vídeo recupera partes do momento da gravação, que aconteceu em março, em Londres, e mostra um ambiente de grande cumplicidade entre ambos. Gostei da interpretação de Amy. Bonito vê-la assim, como artista imponente e sóbria.
Agora me pego a pensar: porquê este vídeo foi menos repercutido que a notória morte de Amy? Ela viveu pouco e intensamente, o que na minha opinião fez com que ela produzisse com qualidade... Mas porque a minoria consegue enxergar tal feito (ou fato)? Porque a morte da Amy se tornou mais "glamurosa" do que a sua própria arte (ou mesmo a arte inspirada nela)?
Deixo claro aqui que, por se tratar de uma artista popular como ela, eu preferiria ter ouvido outra notícia que não a sua morte. Poderia esperar qualquer tipo de "informe". Ela poderia ter anunciado que viria ao Rock in Rio, por exemplo. Ou quem sabe teria dado outro vexame federal numa apresentação numa pequena ex-república soviética. Dada a expectativa em torno de um novo disco seu, quem sabe algum material inédito tivesse vazado na internet… Ou quem sabe – como eu sou sempre otimista – ela tivesse convocado uma grande entrevista coletiva para comunicar ao mundo que estava “limpa” – livre das bebidas e das drogas! Tudo isso era possível, mas minha reação imediata ao ouvir a notícia foi racionalizar o óbvio... E nem teria sido preciso ouvir que a causa da morte estava relacionada com uma complicação relativa às bebidas e às drogas.
É como se as pessoas – todos, inclusive eu e você – estivéssemos esperando isso dela. Sua morte “trágica” (esse adjetivo foi mais usado para descrever o que aconteceu com Amy do que “inesperada”) soou como se fosse apenas uma questão de tempo – um mero ponto final de um processo inevitável que ela já havia anunciando em episódios cada vez mais repetitivos, alardeados como crônicas bizarras pela imprensa. Sendo até um pouco atrevido, não duvido que houvesse até quem torcesse secretamente para que isso acontecesse – pelos motivos mais confusos, desde a necessidade de preservar sua obra intacta (antes que ela começasse a oferecer discos medíocres em uma suposta carreira decadente), até pela mórbida obsessão de poder ler um obituário brilhante sobre uma artista que deixa o mundo no auge da sua carreira.
Bem, para aqueles que imaginavam (veladamente ou não), que sua morte traria um inevitável circo de mídia – bravo! E foi vendo justamente esse “espetáculo” que eu comecei a me perguntar qual era o sentido de tudo aquilo. Por que a reação à morte de Amy foi tão histérica? Porque "espremer" tanto o caso clínico de Amy? Aposto que em outubro, quando divulgarem oficialmente o que causou a sua morte o mesmo blá-blá-blá ressuscitará. Acho uma bobagem esse burburinho da mídia! O que este povo que promove o sensacionalismo espera ouvir a respeito da morte da Amy? Que ela teria morrido por uma infecção generalizada do silicone implantado?
O “barulho” que a morte de Amy Winehouse provocou, infelizmente, teve muito pouco a ver com a sua arte – e seu inegável talento –, e quase nada a ver com uma ligação genuína que as pessoas tinham por ela. Não estou exatamente duvidando daqueles que realmente sofreram com a perda – que são, calculo, uma pequena fração dos que se manifestaram no "orgasmo múltiplo" da hipocrisia e do marasmo dos comentários referente a sua morte. Mas não posso deixar de questionar como sua morte teria repercutido se não vivêssemos uma era tão conectada. O que seria muito bom se essas conexões não fossem vazias…
Como escrevi logo no início, a carreira de Amy foi relativamente curta – ainda mais se comparada a outros ídolos da música que partiram em circunstâncias parecidas e são venerados (e velados) até hoje. Mas a reação à notícia de sua morte foi tão grande que eu arriscaria até a dizer que foi desproporcional com relação ao seu legado – a não ser pelo fato de que… ela merecia tudo isso. Parece confuso? Explico.
Qualquer pessoa que aprecia a arte sabe que quando um artista é revolucionário, não importa se ele ou ela deixou um, dois, três, vinte discos – ou vinte livros, trinta peças, quarenta filmes, cem quadros. O que devemos sempre lamentar é o fato de que ele ou ela nos deixou com a promessa de que muitos outros trabalhos interessantes poderiam ser produzidos.
Amy deveria sim ter recebido todas essas homenagens que recebeu – e as que ainda receberá! Centenas de cantoras, músicos, artistas e “performers” vão beber por gerações na sua fonte – e com certeza sonham em um dia poder criar (ou mesmo superar) o sacode que ela deu no mundo do pop. Mas será que todo mundo que soltou um comentário tolo sobre sua morte reconhece esse talento artístico – esse legado? Creio que não…
Justamente pela enorme poeira que se levantou – e que ainda está baixando –, só vamos entender daqui a algum tempo o registro que Amy Winehouse e sua música vai deixar na nossa memória. Eu, por aqui, torço sempre para que a música vença, e para que todo esse “ruído” em torno de sua vida, sua decadência, seu instinto autodestrutivo, seu “mau exemplo” – e até mesmo a ridícula “glamurização” disso tudo –, não vá além do oportunismo imediato de quem quer cultivar o sensacionalismo. Eu prefiro a Amy da obra de Paulo Cavalcante exposta no Museu de Belas Artes do Rio ( foto do início deste post). Eu prefiro a Amy interpretando Valerie!
Como escrevi logo no início, a carreira de Amy foi relativamente curta – ainda mais se comparada a outros ídolos da música que partiram em circunstâncias parecidas e são venerados (e velados) até hoje. Mas a reação à notícia de sua morte foi tão grande que eu arriscaria até a dizer que foi desproporcional com relação ao seu legado – a não ser pelo fato de que… ela merecia tudo isso. Parece confuso? Explico.
Qualquer pessoa que aprecia a arte sabe que quando um artista é revolucionário, não importa se ele ou ela deixou um, dois, três, vinte discos – ou vinte livros, trinta peças, quarenta filmes, cem quadros. O que devemos sempre lamentar é o fato de que ele ou ela nos deixou com a promessa de que muitos outros trabalhos interessantes poderiam ser produzidos.
Amy deveria sim ter recebido todas essas homenagens que recebeu – e as que ainda receberá! Centenas de cantoras, músicos, artistas e “performers” vão beber por gerações na sua fonte – e com certeza sonham em um dia poder criar (ou mesmo superar) o sacode que ela deu no mundo do pop. Mas será que todo mundo que soltou um comentário tolo sobre sua morte reconhece esse talento artístico – esse legado? Creio que não…
Justamente pela enorme poeira que se levantou – e que ainda está baixando –, só vamos entender daqui a algum tempo o registro que Amy Winehouse e sua música vai deixar na nossa memória. Eu, por aqui, torço sempre para que a música vença, e para que todo esse “ruído” em torno de sua vida, sua decadência, seu instinto autodestrutivo, seu “mau exemplo” – e até mesmo a ridícula “glamurização” disso tudo –, não vá além do oportunismo imediato de quem quer cultivar o sensacionalismo. Eu prefiro a Amy da obra de Paulo Cavalcante exposta no Museu de Belas Artes do Rio ( foto do início deste post). Eu prefiro a Amy interpretando Valerie!
